Professor esfaqueado e chamado de 'macaco' fala sobre audiência feita quase 2 anos após crime


O professor da Unesp de Bauru (SP), que foi agredido com canivete e chamado de "macaco" na saída de um mercado no dia 20 de novembro de 2019, Dia da Consciência Negra, afirma que participar da primeira audiência de instrução do caso quase dois anos após o crime o fez ter a sensação de demora da esfera judicial.


"Participar da audiência mexeu muito com minha estrutura emocional. Confesso que foi quando caiu a ficha que o caso poderia ter sido muito grave e não poderia estar com a minha família. Mesmo sabendo que a pandemia atrasou muitos processos e da condição difícil que enfrentamos, eu fiquei com a sensação de demora porque o que mais queremos quando ocorre algum crime é que ele seja resolvido e tenha a punição devida", afirmou Juarez Xavier.

Na época, Juarez saia de um supermercado quando foi abordado pelo agressor, que o chamou de “macaco”. Depois disso, os dois brigaram e o professor foi atingido com golpes de canivete. Uma testemunha que ajudou a socorrer o professor disse na época ter ouvido o xingamento.

O caso foi registrado como lesão corporal e injúria racial. O agressor Vítor dos Santos Munhoz, que chegou a ser preso, foi liberado para responder o processo em liberdade mediante pagamento de fiança de R$ 1 mil.


Conforme o advogado de Juarez, Maurício Augusto de Souza Ruiz, a audiência foi de forma online. Foram ouvidas três testemunhas de acusação, a vítima e o réu. Já a defesa de Vitor não indicou testemunhas para essa audiência.


A defesa de Vitor alega que ele foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide e é considerado incapaz. Segundo a advogada Kelly da Silva Alves, a linha da defesa é comprovar que o Vitor não tem condições de ser responsabilizado pelo crime por sua condição mental e que não houve o crime de injúria racial.


“Por meio das imagens que conseguimos com o supermercado nós conseguimos comprovar nos autos do processo que não havia testemunha no local e que de forma alguma o Vitor proferiu algum xingamento ou alguma injúria racial em relação ao professor Juarez. Então nós conseguimos provar que não havia testemunhas no local pelas imagens e que a testemunha ouvida pela polícia em depoimento disse que chegou no momento em que o senhor Juarez já estava agredindo o Vítor e ele precisou usar o canivete para se defender. Então, a nossa linha de defesa é comprovar nos autos que não existe materialidade do crime de injúria, não há provas realmente.”


Ainda segundo a advogada do réu, a defesa já entrou com um pedido de avaliação de sanidade mental.


“O nosso pedido é que o Vitor possa ser avaliado por um médico capacitado afim de juntar nos autos e comprovar que ele é uma pessoa incapaz. Essa é nossa linha comprovar que ele é incapaz, imputável e que ele não cometeu esse crime de injúria, que não provas materiais desse crime”, completa.

Nas redes sociais, o professor Juarez informou que vai tentar mudar a tipificação do crime. Na postagem em seu perfil no Instagram, Juarez escreveu que “mudar essa tipificação é essencial para luta antirrascista.”


Na época do crime, o advogado do professor, Maurício Ruiz disse que para eles o suspeito cometeu injúria racial e tentativa de homicídio. Segundo ele, se não fosse a intervenção de terceiros, o professor poderia ter sido assassinado.


"Vamos esperar esse laudo de sanidade mental que deve sair até o fim do ano. Depois disse, o processo segue para conclusão e aí poderemos ver se o MP se manifesta para que o crime se enquadre como racismo", explicou.


De acordo com o Tribunal de Justiça, a juíza responsável pelo caso é Érica Marcelina Cruz. Após a entrega de todos os documentos, a sentença pode ser proferida no prazo médio de 10 dias, da data em que o processo for remetido à juíza.


O professor Juarez Xavier, 60 anos, é militante do movimento negro. Com mestrado e doutorado pela USP, ele é professor da Unesp Bauru e coordenador do Núcleo Negro Unesp para a Pesquisa e Extensão (Nupe).


Ao G1, ele relatou sobre preconceito que sofreu quando era aluno e também quando teve sua primeira experiência de ser vítima de racismo como professor, em 2015. A frase “Juarez macaco” foi achada em um dos banheiros da Unesp Bauru.


Na época, segundo o professor, o que mais marcou foi o fato de que as pichações foram achadas no banheiro contra ele e também contra mulheres negras.


"Foi a covardia do ato que me marcou. Pichação no banheiro da universidade, com ofensas extensivas aos estudantes e ao pessoal da limpeza. A forma vil e agressiva contra mulheres simples, trabalhadoras braçais", afirmou na época.


Após as pichações, uma comissão de professores na Unesp foi formada para investigar as frases encontradas no banheiro. Os professores ouviram algumas pessoas durante quatro meses, mas não identificaram os autores.


Fonte: G1 Bauru e Marília